Reminiscências – O Bonde
Estamos comemorando 40 anos de uma grande asneira. Mas, ao que parece, o Governo do Estado tem, agora, planos para um novo bonde.
O ADEUS AO BONDE
(01/06/68)
Certos políticos servem-se de quaisquer meios para atingir determinados fins. Não raro, revolvem sepulturas, à cata de um pretexto para encetarem movimentos que, muitas vezes, nada tem que ver com os objetivos colimados.
Desta feita, foi a vez do bonde. Um grupo de vereadores, pretendendo demonstrar seu apreço ao Executivo Municipal, não conseguiu imaginação maior do que elogiá-lo por ter extinto o sistema de bondes da cidade. Parece incrível que, mesmo em face do exuberante plano de obras, ou da maior conquista da Capital civilizada, que foi a contratação dos estudos do seu Plano Diretor – iniciativa, esta sim, que consagrará a administração atual – esses amigos de Sua Excelência só conseguiram ver a retirada do velho bonde das ruas da nossa cidade.
Mas já que profanaram o túmulo e de lá retiraram o indefeso bondinho, para exibi-lo como o inimigo do progresso, já liquidado pelo valente poder público, vamos aproveitar a oportunidade para fazer-lhe a justiça, que faltou no “réquiem” de sua extinção. Muitos foram os saudosistas e técnicos que cantaram em prosa e verso as despedidas ao finado; muitos foram os que relembraram os velhos feitos dos nossos bondes; e todos dirigiram-se aos acompanhantes do último adeus, reconhecendo que a era do bonde passara.
Entretanto, quase ninguém levantou a voz, para lembrar, em momento oportuno, que o sistema de bondes não é obsoleto, não é meio de transporte ultrapassado, como se pretende apresentá-lo. Em grandes, importantes e avançadas capitais da Europa, como Roma, Madrid ou Viena, operam os bondes, com regularidade e resultados ímpares. Em quase todas as grandes cidades européias, ainda é o bonde o sistema essencial de transporte coletivo.
Das virtudes e qualidades dos bondes europeus, muito se pode dizer, com a simples observação de cidades como Zurick, Munich, Essen, Stuttgart, e tantas outras. Como, então, compreender a aversão brasileira ao bonde, que levou à formação de uma imagem tão desfavorável ao sistema que tantos serviços prestou às nossas cidades?
A resposta é simples: preconceito. Preconceito de país subdesenvolvido, que vê sempre, no aparecimento de um novo método de transporte, a condenação do anterior. Por esse mesmo motivo, a ferrovia brasileira foi abandonada à própria sorte; e o brasileiro viaja de São Paulo a Ribeirão Preto de avião. O bonde se impôs, em nossa Capital, como meio de transporte, antes do ônibus e, apesar da concorrência perturbadora que este lhe fez, manteve-se como o sistema de maior capacidade e mais baixo custo. Entretanto, não foram poucas as queixas que a concessionária desse serviço, a partir de 1925, teve que fazer à Municipalidade, por causa da proliferação de linhas de ônibus que lhe moviam concorrência desleal e anárquica, impedindo os carros elétricos de se movimentarem livremente.
Não obstante, o bonde manteve sua primazia no transporte coletivo, até cerca de 1954, a partir de quando entrou em rápida decadência. Nenhum novo plano de linhas foi elaborado, nenhuma modernização foi introduzida e, aos poucos, permitiu-se a total invasão dos percursos dos elétricos por ônibus e automóveis, que lhe embaraçavam o deslocamento. Assim, foi-se paulatinamente criando o consenso de que o bonde atrapalhava o trânsito. Lembramo-nos, ainda com muita nitidez, de uma discussão mantida (por coincidência em uma fábrica de ônibus em São Paulo), com diversos técnicos em que, acompanhados por um ou dois engenheiros colegas da CMTC, sustentávamos a tese de que o bonde ainda teria, por muito tempo, relevante papel no transporte da cidade. Argüidos, então, pelas dificuldades de trânsito causadas pelo bonde, um dos nossos exprimiu conceito lapidar: o trânsito é que atrapalha o bonde!
Quanta verdade encerra essa frase. Com efeito, na medida em que reconhecemos que o problema fundamental é o do deslocamento da população, vale dizer o do transporte coletivo prioritário, pouco nos deveria importar a dificuldade do trânsito de automóveis. Houvesse São Paulo reservas de vias de transporte por bondes, sem interferência de outros veículos na faixa privativa, e a situação do trânsito não se teria agravado tanto, pois a população teria transporte coletivo mais eficiente.
Entende-se a substituição do sistema de bondes, que são os veículos de maior capacidade de transporte entre os demais, por um outro de capacidade superior: o metrô. Mas nunca se poderia cogitar da troca do bonde por ônibus, ou automóveis.
Hoje, onde havia três ou quatro bondes enfileirados, há vinte ou trinta ônibus, como na Av. Liberdade, na Celso Garcia, em tantas outras artérias importantes. Só que agora não há o bonde para aliviar a situação! … Em algumas importantes cidades da Europa, vimos planos de substituição progressiva do bonde por metropolitano. Num primeiro estágio, cuidaram as autoridades de tornar subterrâneos os trechos centrais das linhas de bondes, mais tarde, então, alongando esses túneis, transformados em vias de metrôs. Mesmo assim, permanecerão as linhas de bondes periféricas, destinadas à alimentação do sistema metropolitano, como se vê em Madrid ou Milão.
O que não se pode entender é a suspensão de um sistema de transporte de massa, sem a implantação de outro de igual ou maior capacidade. E é desse erro, para o qual várias administrações contribuíram, que alguns vereadores querem extrair a matéria prima para condecorar o prefeito.
Matéria publicada no jornal A Gazeta em 01/06/1968.
25/06/2008
Adriano Murgel Branco

