Reminiscências Rodoviárias
Quando assumi a Secretaria dos transportes do Estado, quatorze meses após a posse do Governador Montoro, vários órgãos da imprensa procuravam caracterizar a sua administração como inoperante. Na verdade, o primeiro ano do governo Montoro foi empregado na restauração das finanças estaduais e no ataque a problemas emergenciais; mas, ao mesmo tempo, o governo vinha adotando muitas iniciativas, pouco divulgadas, enquanto a oposição organizava badernas, como foi a famosa derrubada das grades do Palácio.
Uma das atividades de que me incumbiu o Governador, em maio de 84, foi a de planejar e implantar um sistema de estradas vicinais asfaltadas, que ligassem os centros produtores às rodovias e à ferrovia, que melhorassem as ligações com as escolas e hospitais, etc. O Estado de São Paulo possuía duas dezenas de estradas municipais pavimentadas pelo Estado e a nossa proposta era de fazer mais 400, pelo menos, totalizando cerca de 6.000 km. O Governador decidiu então por um projeto de 4.000 km, com implantação de pelo menos 2.400 km, apesar de restarem pouco mais de 2 anos para o término de seu mandato. Tudo isso sem prejuízo da restauração de 9.000 km de rodovias do Estado, da implantação de terminais rodoviários de passageiros em todo o Estado e de várias outras obras do sistema rodoviário. Mas também não podíamos esquecer da rede ferroviária, da recuperação da VASP, do asfaltamento dos aeroportos e construção de novos, do transporte hidroviário.
Em outubro de 84 lançamos a primeira série de editais de licitação para 304 obras, com grande número de vicinais. Mas também assinamos convênios com prefeituras para a construção de 356 terminais rodoviários, mediante repasse de recursos aos municípios.
Nossos adversários diziam que aquilo tudo era cortina de fumaça. Quando viram os contratos assinados, disseram que as obras não iam ser feitas; quando as viram em construção, disseram que não iam ser acabadas….Eles não imaginavam o quanto o Estado se organizara administrativa e financeiramente para o grande plano que se impusera; não queriam reconhecer a seriedade com que Montoro governava, praticando uma gestão inegavelmente democrática e eficiente.
Ao final do governo, contabilizávamos somente no setor rodoviário (dos outros farei menção posterior):
Estradas Vicinais
· 463 estradas com mais de 5 km, totalizando 7.300 km em 349 municípios, dentre os quais 3.600 km de pistas acabadas e 3.700 em diferentes fases de obras. Além dessas, foram feitas 76 estradas com menos de 5 km, totalizando 184,82 km, em 29 municípios.
Outras obras rodoviárias
· Do DER, 153 obras de variada dimensão
· Da DERSA 43, obras, incluindo duplicação de rodovias
· Convênios com prefeituras para construção de Terminais Rodoviários de Passageiros: 356
Tudo isso se conseguiu porque os prefeitos e as comunidades foram sempre ouvidas; porque, aprovado pelo Governador cada programa, não se fizeram alterações posteriores para agradar a quem quer que fosse. O Governador era o primeiro a exigir o cumprimento dos programas.
São muitas as histórias vividas em torno daquela ingente tarefa a que se dedicou todo o funcionalismo, sem esmorecimentos. Mas uma, dentre outras tantas, merece referência. Quando fomos inaugurar a ligação Gabriel Monteiro/Bilac, suspendemos por instantes a solenidade para receber a visita do padre Thiago, um holandês simpático e já velhinho, que discursou comentando as muitas vezes em que ele vira, ao longo dos últimos 20 anos, pessoas morrerem por não haver como socorrê-las rapidamente, na dependência daquela estrada. Foi um relato emocionante em que o padre Thiago concluiu dizendo: “esta é uma das maiores alegrias de minha vida; agora posso morrer em paz”. E morreu pouco tempo depois.
Adriano M Branco
18/06/2008


Caro amigo Adriano.
Como ex-prefeito de Rio Claro a época desse artigo, posso testemunhar o grande salto de qualidade que ocorreu na infraestrutura de transportes do Estado de São Paulo, notadamente na malha de vicinais. Parabéns pela contribuição que você vem dando à vida pública e privada desse país ao longo de tantos anos e um cumprimento especial por esse site tão elucidativo.
Kal Machado