Imprimir este post Imprimir este post

Reminiscências – Trânsito

Se o artigo abaixo fosse publicado hoje (23/06/08) ninguém diria que já se passaram 40 anos!

 

SÃO PAULO VAI PARAR

 

 

         Em 61, num artigo de jornal, tivemos ocasião de alertar as autoridades, quanto à fragilidade das soluções por tentativa, para os problemas de trânsito em São Paulo. Dissemos, então, concluindo longa explanação sobre os métodos modernos de planejamento, que a reformulação do tráfego, feita em toda a cidade de uma só vez, pelo método da tentativa, bem poderia levar ao colapso total.

         Essa grave advertência foi repetida, em maio de 66, através de programa radiofônico e lida na mesma época na Câmara Municipal. Posteriormente, foi reiterada, ao longo de cinco ou seis depoimentos prestados à Comissão de Trânsito e Transportes do Legislativo da Cidade; foi objeto de vários artigos pela imprensa e de pronunciamento perante o Legislativo Estadual. Insistimos como pudemos nesse tema, durante 66, porque se depreendia do noticiário da época que o Governo do Estado ia empenhar-se numa reformulação total do trânsito de São Paulo, baseada numa tentativa, num grande ensaio desprovido de fundamentação cientifica e de métodos racionais de implantação.

         E o caos veio!

         Não recordamos esses fatos pelo gosto de polemica, ou pelo desejo de ressaltar nossas qualidades de “bidu”, como as classificaria a saborosa gíria brasileira. Mas, o dever nos impõe a tarefa de lembrar que uns poucos e simples raciocínios técnicos eram bastantes para fazer previsões. E esses raciocínios continuam ignorados.

         Prova disso é o recente livro do vereador Odon Pereira, sobre toda a celeuma causada pelo trânsito há um ano atrás. O ilustre vereador, a quem rendemos homenagem pelo esforço empreendido na procura de soluções para a magna questão, acolhe em seu livro um longo depoimento, atribuindo a técnicos participantes dos estudos de tráfego urbano àquela época, que é um atestado iniludível de que o problema não foi compreendido em sua essência. Aquele depoimento, preocupado em demonstrar que o planejamento de transito que se tentou implantar em 67 não era empírico, aponta a aplicação de métodos racionais de análise à solução de um rosário de pequenas questões; deixa claro, claríssimo, no entanto, que os fundamentos básicos do problema foram tratados com extrema superficialidade.

         Reviver o assunto por causa do livro do vereador não é propriamente nosso objetivo; mas, antes, fazê-lo pela constatação de que essa consciência da necessidade de um planejamento integral do trânsito de São Paulo não foi absorvida, não foi alcançada pelo poder público estadual. E, na medida em que se retrata a solução do transporte coletivo, em que grandes obras perturbam a circulação urbana e em que novos veículos são licenciados, pode-se assegurar que, a prosseguir a experimentação prática de soluções setoriais para o tráfego, SÃO PAULO VAI PARAR!

         Causa-nos espécie ver que o governo estadual, que empenhou recursos vultosos, a economia do publico e o seu prestígio político e pessoal no plano de 67, esteja hoje totalmente alheio às necessidades do DET, para realização de um verdadeiro plano. Custa crer que pelo menos os dados colhidos pelo planejamento do Metropolitano e pelos estudos do Plano Diretor não sejam compilados de forma útil a um plano de trânsito, já que estão ao alcance das mãos, numa oportunidade que dificilmente se repitirá.

         O que se vê, entretanto, é a discussão pelos jornais do uso que o Estado faz dos recursos financeiros provenientes das multas de trânsito. É claro que esses recursos deveriam ser carreados para o DET; mas é absurdo que a regularidade do trânsito de São Paulo dependa dessa fonte de renda.

         O congestionamento das ruas de São Paulo não decorre exclusivamente, e, talvez, nem mesmo necessariamente, da falta de vias públicas. A Capital tem um índice de veículos por habitante dos mais baixos do mundo, para cidades de seu porte. E mesmo assim é congestionada.

         Todo o nosso problema reside NO USO que o paulistano faz do seu automóvel e não no número de carros que ele possui. Esse uso exagerado, é abusivo, porque não há transporte coletivo adequado e não há um sistema racional de circulação. Essas duas lacunas exigem planejamentos específicos, de grande porte e coordenados – mas que não estão sendo feitos. As obras viárias ajudarão; mas não resolverão!

         A implantação do metropolitano, por sua vez, é uma grande esperança, eis que será o elemento básico de transporte coletivo. Mas só se tornará um fato concreto dentro de muitos anos. Até lá, suas obras constituirão mais um fator de congestionamento da cidade.

         Por essas razões, urge um planejamento do transporte de superfície, coordenado com um plano verdadeiramente bem elaborado de circulação. Se isso não se fizer, em curto prazo SÃO PAULO VAI PARAR!

 

Adriano M. Branco

A Gazeta 05/06/68

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

Your email is never shared.
Required fields are marked *




ZAW