São Paulo parou?
Os anos de 1966 a 1968 foram pródigos em discussões sobre os problemas de transporte e trânsito na Capital paulista. E dos muitos debates travados publicamente ou em entidades, resultaram algumas máximas que estão estampadas nos jornais e revistas da época. Entre elas, “os problemas do trânsito são conseqüência das deficiências do transporte coletivo”, “o trânsito não pode ser tratado empiricamente, com métodos de tentativa e erro” e “a indisciplina do trânsito afeta a produtividade nacional”. Mas também não faltaram advertências como “São Paulo vai parar” (05/06/68), “o adeus ao bonde” (01/06/68) e “trem a vapor para Brasília” (28/05/67), estes dois últimos mostrando que o abandono do transporte de grande capacidade, como os bondes e os trens, causaria graves problemas de deslocamento de cargas e de pessoas no futuro, afetando a economia e a qualidade de vida nacionais.
Quem ler esses artigos desavisadamente pode pensar que foram escritos hoje. Mas não: há 40 anos já se viam as nuvens do futuro.
De fato, São Paulo já parou. Quando se verifica que os prejuízos causados à Região Metropolitana devido ao trânsito e ao transporte beiram a casa de 30 bilhões de reais por ano, pode-se dizer que a cidade está paralisada.
No outro lado, a constatação de que 93% das cargas no Estado de São Paulo são transportadas por caminhões (na Europa, 40% e nos EUA, 30%), mostra que chegamos no limite da deseconomia, do uso das estradas e das avenidas. Não é de estranhar que os caminhões, que são 5,4% da frota paulista de veículos, estejam envolvidos em 32% dos acidentes com mortes.
Esse quadro revela a total indisciplina dos transportes, agravada pela falta de inspeção veicular, excesso de peso dos caminhões, baixo nível de fiscalização e de punições (diz-se que na Capital há mais de um milhão de veículos não licenciados, cometendo impunemente toda a sorte de infrações) e um sem número de outras irregularidades, nos mantém recordista em acidentes e, principalmente, em mortes no trânsito.
Há várias medidas disciplinadoras da circulação que vem sendo adotadas nas rodovias e nas cidades. Mas, não acompanhadas das medidas de base, serão meros paliativos. A construção do RODOANEL será um desses paliativos, que esgotará a sua capacidade em 5 ou 6 anos, se o Brasil continuar desprezando o transporte ferroviário e hidroviário e estimulando, como faz, o transporte rodoviário, nas cidades e nas estradas.
Há 150 anos o Brasil experimentou o grande passo tecnológico no transporte: saímos do carro de boi para a ferrovia, do barco a remo para as embarcações a vapor. Na cidade de São Paulo, saímos da era dos tílbures para o bonde elétrico, há 108 anos!
Lidávamos com duas tecnologias de ponta que, aprimoradas durante esse século, deram origem ao transporte de massa nas cidades e ao trem bala. E como estamos hoje?
Embarcações e trens deram espaço aos caminhões e “treminhões…”, até chegarmos ao disparate dos 93% do transporte de cargas, no Estado de São Paulo, circulando nas rodovias e dentro das cidades.
Bondes desapareceram; tróleibus estão sendo desativados; transporte de massa cresce a passos de cágado.
Na R.M.S.P. apenas 6,6% dos deslocamentos diários se fazem através do transporte de massa; 36,7% se realizam a pé! São 14 milhões de percursos a pé todos os dias.
É triste reconhecer que, ao longo dos 158 anos que sucederam à implantação dos trens no Brasil e 108 anos depois dos primeiros bondes elétricos, caminhamos para o nada. Um nada que ceifa milhares de vidas e que custa à Nação muito mais do que seria necessário para desfrutar de tecnologias modernas de transporte coletivo e de cargas.
O vírus que corrói o nosso sistema de transportes, bem nutrido pelos famosos lobbies do petróleo e da indústria automotiva, é o conceito de EXTERNALIDADES, que tem provocado graves distorções na comparação dos custos. Enquanto na ferrovia o empreendedor teve que, historicamente, arcar com todos os investimentos, o transporte rodoviário recebeu de graça as vias; enquanto as perdas humanas são insignificantes nos transportes por hidrovias, dutovia ou ferrovia, no congênere rodoviário representam bilhões de reais por ano; enquanto o transporte de massa se vale de energia elétrica com alto rendimento, os caminhões e os automóveis queimam combustível, com rendimentos energéticos não superiores a 20% e produzem poluentes que contaminam o globo terrestre de pólo a pólo.
Só que esses fabulosos prejuízos não aparecem como custos reais do transporte rodoviário, mas como externalidades, eufemismo que corresponde, no dizer de Hazel Henderson (Mercado Ético), a “perdas sociais e ambientais ocultas, que as empresas excluem dos seus balanços e transferem à sociedade ou ás futuras gerações”.
Eu dizia há poucos dias no Instituto de Engenharia que chega de nos enganar; chega de enganar os outros nessa área dos transportes. Em 1958 a Comissão Anápio Gomes, contratada pela Prefeitura de São Paulo para analisar os problemas do transporte (os do trânsito ainda não eram tão grandes) concluiu que as perdas sociais devidas ao mau transporte eram maiores do que todo o orçamento municipal! Faz 50 anos que sabemos disso e continuamos com os mesmos erros.
Mas também sabemos, há um século que a implantação dos bons transportes valorizam o entorno, criando condições de investimento em sua permanente melhoria. Foi assim que a Cia. Light cresceu com o seu sistema de bondes; foi assim que a Companhia Paulista de Estradas de Ferro se tornou a melhor ferrovia do País. EXTERNALIDADES POSITIVAS ajudam a resolver os problemas; EXTERNALIDADES NEGATIVAS nos empobrecem, desviam-nos das boas soluções e comprometem o futuro.
São Paulo passou pela fase do congestionamento, vive uma situação de caos e se aproxima perigosamente de um quadro de revolta popular, que já se divisa em algumas ações de violência, que podem se descontrolar. É a hora de unir forças, conjugar inteligências e ir em busca de uma distribuição modal mais razoável. Como está, não serve a ninguém.


Meu avô é um orgulho só! Fonte de inspiração para quem está perto dele e agora com o blog, para aqueles que estão bem longe também. Fico muito feliz por você ser este exemplo maravilhoso para mim, para nossa família, para as pessoas que estão aqui ao lado no meu trabalho admirando seus textos e me parabenizando por ser sua neta. Obrigada vovô.
Deixando sempre sua marca, com disciplina, visão de futuro, de coletividade, e honestidade. Que honra.
um beijo Andréa