Por que este novo site?
Ao lado dos inconvenientes com que a idade nos brinda, há a compensação da experiência, da vivência de longa data com os problemas, da compreensão face às questões sociais.
A atual crise do trânsito em São Paulo vem me conduzindo a uma análise mais longa, que transcende os aspectos do momento. E começam a emergir indagações: por que, após o fantástico salto tecnológico de meados do século XIX, quando se substituiu o carro de boi por ferrovias, temos hoje, no Estado de S. Paulo, 93% das cargas transportadas em caminhões, com elevado custo, com graves conseqüências para a circulação urbana, com enorme participação nos acidentes fatais, com consumo exagerado de energia e considerável produção de poluentes? Por que, após a introdução da incrível tecnologia dos bondes elétricos, em 1900, tirando-nos dos deslocamentos a pé ou a cavalo, o nosso sistema de transporte de massa (metrô e trem metropolitano), de que o bonde foi precursor, perdeu a corrida para os sistemas de menor eficiência, a ponto de ele representar apenas 6,6% dos deslocamentos diários na Região Metropolitana de São Paulo, enquanto 37% desses deslocamentos se realizam, hoje, a pé?
Eu ouvi sempre, ao longo de 52 anos de carreira ligados aos transportes, que não se tinham recursos para modernização ferroviária e para expansão do transporte de massas. E que tais empreendimentos são sempre morosos.
Morosos quanto? O trem já acumula uma história de 158 anos no Brasil; o transporte coletivo tem 108 anos em São Paulo. Devemos esperar até quando? E, o que é pior, é que, nesses mais de um século, andamos para trás.
Recursos não faltaram para implantar 5.000 km de ferrovia no Estado de São Paulo e nem para a ampla rede de bondes que a Capital já teve. Por que eles desapareceram, ao mesmo tempo em que a Região Metropolitana suporta hoje, em conseqüência da inadequacidade dos transportes, prejuízos da ordem de 30 bilhões de reais todos os anos?
Ao tempo em que fui Secretário de Estado dos Transportes em S.Paulo (1984 a1987), o Estado reformulou a sua rede ferroviária, implantando o corredor de exportação de Campinas a Santos e iniciando a eletrificação de toda a expansão desse corredor até Ribeirão Preto. Nos anos subseqüentes tudo isso foi abandonado, a rede elétrica removida e as locomotivas importadas sucateadas. Quais são as forças que impedem o nosso desenvolvimento, tal qual a General Motors fez nos Estados Unidos (GNT Especial, 21/05/98) financiando a remoção dos tróleibus e dos bondes em todas as cidades?
Quando revejo os meus arquivos deparo-me com dezenas de publicações em jornais e revistas, na década de 1970, chamando a atenção para o abandono das ferrovias e do transporte público e para o emprego de técnicas obsoletas de disciplinamento do trânsito. Em vão se disse aos quatro ventos que o trânsito era uma conseqüência do transporte de carga e de passageiros na Região Metropolitana. Passados 40 anos, estamos repetindo exatamente a mesma coisa. Com o agravante de que agora temos 6 milhões de automóveis (contra meio milhão da época), com 20% deles sequer licenciados; com o disparate de movimentar 93% das cargas do Estado por caminhões, com o agravante de que eles deixaram de ter 6 toneladas de peso para ter hoje 70, rodando em estradas não preparadas para essa carga e circulando pelas avenidas da Cidade.
São Paulo vai parar, disse o arquiteto Cândido Mota, dias atrás. São Paulo já parou, é o que sente a comunidade, que se aproxima do desespero, revelado por agressões ao transporte público e pela violência entre os que dirigem na Cidade.
Vamos então repassar esses 150 anos em que o transporte ferroviário despontou como incrível avanço tecnológico e o bonde chegou para nos livrar do esterco dos cavalos nas ruas e das longas caminhadas a pé. Poluição por poluição, desconforto por desconforto, estamos hoje muito pior.


Caro Dr. Adriano: em boa hora, você coloca à disposição de todos, o enorme conhecimento e experiência acumulados ao longo de anos dedicados à causa pública. Por um lado, é triste ler seus artigos de tantos anos que já alertavam para os problemas, no caso de trânsito, que hoje nos castigam. Mas é reconfortante tê-lo com esta visão de futuro, que bem conheço. Gostaria de lhe sugerir que nos brindasse com outros fatos históricos, como os seus debates, ao final dos (1960, com o Cel. Fontenelli (o jocosamente chamado Cel. Fon-Fon) e de tantos outros personagens, como os “causos” do Engº Plínio de Queiroz.
Grande abraço e sucesso ao blog.
Hélio Costa